Notícia
27/05/2026
Cuidar de quem cuida: Centro Âncora celebra 14 anos de amparo à saúde mental e espiritual de sacerdotes e religiosos.
Há 14 anos, o Centro Âncora atua no acolhimento e na revitalização de consagrados no Brasil.
Por trás de cada missão fecunda na Igreja, existe um coração humano que também se cansa, silencia e enfrenta limites físicos e emocionais. No ritmo intenso das atividades pastorais, a linha entre o zelo apostólico e o esgotamento que adoece tornou-se um dos grandes desafios contemporâneos para o clero e a vida consagrada. Diante dessa realidade, compreender que a fragilidade humana não anula a vocação, mas exige cuidado, e é o passo fundamental para garantir a longevidade ministerial.
Para celebrar os 14 anos de uma história inteiramente dedicada ao amparo de quem cuida do Reino de Deus, o Centro Âncora apresenta uma entrevista exclusiva com a fundadora e diretora, Irmã Adenise Somer, CR. A religiosa partilha a origem providencial dessa obra de acolhida e a importância do modelo multidisciplinar na revitalização de sacerdotes e consagrados que necessitam renovar o vigor do seu “Sim”.
Acompanhe, a seguir, a entrevista com a Irmã Adenise, CR, e descubra como o Centro Âncora tem transformado a dor em renovação vocacional ao longo de mais de uma década de missão:
Irmã Adenise, olhando para a história de 14 anos do Centro Âncora, qual foi o chamado fundamental que deu origem a essa obra de acolhida?
Irmã Adenise: O movimento inicial para que o Centro Âncora acontecesse nasceu do sofrimento de uma das minhas coirmãs. Morávamos na mesma comunidade e ela, uma jovem de 35 anos, cheia de vida, disposta e formada em psicologia que trabalhava há anos na formação, de repente adoeceu e perdeu o entusiasmo para tudo. No caminho de acompanhamento com ela, percebi que não existia um lugar estruturado para buscar ajuda; havia apenas profissionais isolados em seus consultórios, sem ligação entre si.
Ela precisou ser internada em uma clínica psiquiátrica, e aquele internamento me chocou profundamente, pois todos os sinais da identidade religiosa dela foram retirados. Diante daquela realidade, o seguinte questionamento inquietou o meu coração: “Quem cuida daqueles que cuidam das coisas do Senhor?”. Esse foi o pensamento inicial que me levou a conversar com o Padre Wilton, nosso fundador e com o médico psiquiatra que a acompanhava, o Dr. Maurício Ehlke. Propus a ideia de abrir um centro voltado para essa necessidade dentro da Igreja e ele aceitou o desafio de imediato. A partir dali o projeto foi desenvolvido com muita rapidez: os primeiros pensamentos surgiram em abril 2011, em dezembro do mesmo ano, a metodologia estava escrita e em março de 2012 a casa pronta para ser inaugurada.
O Centro Âncora é amplamente reconhecido por seu modelo trandisciplinar, que une espiritualidade, psicologia e medicina. Como essa integração ajuda a desmistificar a ideia de que o esgotamento ou as crises emocionais são “falta de fé”?
Irmã Adenise: Durante o processo com a minha coirmã, surgiu o questionamento externo se a crise dela não seria um problema de vocação. Mas eu pensava: se no mesmo ambiente comunitário conviviam outras 20 pessoas, por que apenas a dela seria uma crise vocacional? O sofrimento psíquico não está relacionado à falta de vocação.
Não é possível mensurar ou cobrar a fé de alguém quando a pessoa se encontra sob o peso de uma depressão, de uma crise de ansiedade ou de outros desgastes emocionais. O modelo transdisciplinar atua justamente unindo o olhar terapêutico e o atendimento médico ao suporte espiritual, promovendo orações comunitárias e formações específicas voltadas à interioridade. Muitas vezes, a fé enfraquece no dia a dia por ausência de estímulos adequados e por negligência com a própria humanidade. Quando a espiritualidade enfraquece, a fé também começa a balançar. Tratar o humano com o auxílio da ciência e da fé de forma integrada é o que permite reavivar o vigor e a longevidade do chamado.
Na sua percepção, por que muitos sacerdotes e religiosos demoram para buscar ajuda quando estão passando por algum sofrimento emocional?
Irmã Adenise: Nós temos essa tendência de não pedir ajuda, independente também do estado de vida. Nós queremos dar conta; enquanto pessoa, nós queremos dar conta daquilo que estamos fazendo, poucos pedem ajuda. Numa família, às vezes o cônjuge ou outras pessoas próximas percebem que a pessoa não está bem. Mas na vida religiosa e sacerdotal, às vezes não tem quem veja isso, não tem quem esteja ali no momento que a pessoa esta sozinha, então não se percebe.
Mas eu acho que isso independe de dizer “sou religioso, sou sacerdote e não procuro ajuda”. Talvez tenha alguns que são um pouquinho mais resistentes e por isso tentam dizer “não, eu vou dar conta, vou dar conta”, e quando vê, a situação aperta. Eu vejo por mim mesma; em muitos momentos da minha vida eu achei que eu daria conta e, de repente, eu tinha que pedir ajuda, pois não tinha toda a força para aquilo ali.
Qual é a importância da prevenção e do cuidado integral antes que o desgaste se transforme em uma crise aguda?
Irmã Adenise: Que bom seria se conseguíssemos fazer essa prevenção e não precisar, fazer essas paradas para a revitalização, para um tempo que às vezes se torna longo. Às vezes tem pessoas que vêm e ficam dois meses, três meses, quatro meses. Como seria bom se a prevenção nos desse esse suporte.
Tem questões que às vezes, mesmo você parando e buscando ajuda, geram quebras que não vão se refazer mais, que é o caso do burnout. Às vezes tem queimas que acontecem e você não vai voltar com a mesma potencialidade de antes. Então, o importante é prevenir e cuidar antes de adoecer. Quando nós iniciamos o Centro Âncora, nós pensávamos numa coisa que fosse mais prevenindo mesmo, por mais que tenha sido iniciado pela realidade da irmã que estava doente. Depois as demandas vão surgindo e a gente entendendo que o espaço existe para isso. Mas a prevenção foi algo muito forte desde o começo, de trabalhar com esse propósito.
De que maneira a estrutura física e o ambiente do Centro Âncora são pensados para oferecer esse espaço de cura e silêncio?
Irmã Adenise: Toda a nossa estrutura foi sendo edificada de maneira progressiva, aproveitando cada espaço disponível para garantir privacidade, dignidade e repouso. O quarto individual é o coração desse processo: asseguramos que cada acolhido tenha o seu espaço estritamente reservado para que, após as sessões de terapia ou atendimentos, ele possa vivenciar o recolhimento e o tempo consigo mesmo. O jardim e o entorno da casa, embora não formem um terreno amplo, foram planejados para transmitir beleza, harmonia e simplicidade.
De fato, a ausência de grandes bosques ou áreas densas de isolamento foi uma escolha providencial de segurança, essencial para o monitoramento adequado de pessoas que possam apresentar ideações auto lesivas severas. Buscamos eliminar riscos físicos sem perder o senso de paz e acolhimento. Da mesma forma, embora nossa capela enfrente ruídos externos por estar localizada próxima à rua e à recepção, buscamos criar um ambiente de profundo silêncio interior através do fechamento das janelas e, principalmente, do testemunho de oração contínua da nossa comunidade religiosa. As pessoas que realizam o processo ou que nos visitam testemunham de imediato que o Centro Âncora exala uma atmosfera de paz, fruto de uma comunidade que reza ativamente pela cura e restauração de cada história acolhida.
Irmã Adenise, como surgiu a iniciativa de criar os Congressos do Centro Âncora e como essa história se conecta com a trajetória de vocês?
Irmã Adenise: Foi um momento de loucura também. (Risos) São coisas que parece que a gente fica meio cego e só vai. Com o começar do Âncora foi assim, no sentido do congresso também foi de dizer: “Vamos fazer um congresso!”. Aquele tempo eu estava cursando psicologia, então eu estava participando de muitos congressos e pensei: “Que tal a gente fazer um congresso?”. O Agostinho, que também trabalhava no Centro Ancora na época, disse: “Ah, vamos pensar e tal”. Já pensamos nas pessoas e foi uma coisa que aconteceu muito rápida. Eu acho que no segundo ano do Âncora realizamos nosso primeiro congresso, e o resultado foi muito bom.
Essa parte formativa é muito uma herança do IATES, um instituto que havia em Curitiba e que trabalhava a formação na vida religiosa e sacerdotal. A pessoa com quem eu fiz o contato para iniciar o Âncora foi o Agostinho Busato, que era um dos membros do IATES na época, e ele trouxe a equipe desse instituto para o Centro Âncora. Por isso esse lado formativo sempre forte para nós. Logo que aconteceu o primeiro congresso já marcamos o segundo, pois a cada congresso que acontecia, as pessoas já perguntavam: “E o próximo? E o próximo?”. Nos três primeiros anos, eu tenho a impressão que fizemos todos os anos, depois que entendemos esses eventos eram muito trabalhosos e muito oneroso.
Os congressos aconteceram então de dois em dois anos. O maior congresso conseguimos organizar com a presença do Pe. Amadeo Cencini trouxemos, tiveram mais de 500 pessoas e foi muito grande. Os demais foram com números menores, mas sempre muito elogiados quanto à preparação, organização, acolhimento e palestras. No geral, sempre fomos assertivos com as pessoas escolhidas para as conferências.
Para encerrarmos, olhando para trás e contemplando esse marco de 14 anos de história do Centro Âncora, qual é a reflexão que fica desse tempo de missão?
Irmã Adenise: Olhar para esses 14 anos me faz pensar, primeiramente, na minha própria revitalização e naquilo que aprendi para a minha vida. Se eu não tivesse começado o Centro Âncora e não contasse com o suporte dessa equipe transdisciplinar, quem sabe eu mesma não teria sido uma vítima do Burnout ou do ativismo, porque eu também trago essa tendência em mim e preciso me trabalhar constantemente. Por isso, o meu pedido a cada sacerdote e religioso é que olhem com carinho para a sua própria história, suas demandas e suas fragilidades. Que estejam atentos ao coração e compreendam que cuidar de si e zelar pela espiritualidade é a única forma de não se tornarem apenas “funcionários do sagrado” ou meros profissionais da fé. Nós fomos chamados para ser um outro Cristo no meio do povo, e esse rosto precisa ser sustentado com vigor.
Por fim, guardo uma gratidão imensa no meu coração pela equipe maravilhosa que Deus colocou ao meu lado. Desde os profissionais especializados até aqueles que doam a vida nos serviços de limpeza, vejo a ação concreta de Deus em cada um deles. Somos 23 colaboradores e profissionais, além das sete irmãs da nossa comunidade religiosa, todos unidos em prol dessa missão tão rica de amparar e revitalizar quem serve à Igreja. Que cada consagrado saiba que nunca estará sozinho; lançar a âncora é escolher permanecer firme na vocação.
Venha conhecer o Centro Âncora
Agradecemos a Ir. Adenise pela partilha e se você é sacerdote, religioso, consagrado, ou possui liderança sobre uma comunidade e percebe que o peso dos trabalhos apostólicos tem ofuscado o entusiasmo do seu primeiro “Sim”, saiba que você não precisa caminhar sozinho. O Centro Âncora foi edificado para ser o seu porto seguro em meio às tempestades e cansaços da caminhada.
Nossa equipe técnica transdisciplinar e nossa comunidade religiosa estão prontas para acolher você com discrição, dignidade, profundo respeito e cuidado integral.
Permita-se viver um tempo de cuidado com quem sempre cuida das coisas do Senhor. Entre em contato conosco, agende uma visita e conheça de perto a nossa estrutura de revitalização. Lançar a âncora é o primeiro passo para renovar as suas forças e continuar servindo à Igreja com alegria e saúde.
Seguimos juntos nesta missão.
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